Blaustein, Mendes & Ramalho Advogados
Empresarial
15 Jun 2026 · 7 min de leitura

Sociedades familiares no Brasil: desafios e perspectivas no direito empresarial

Representando 90% das empresas brasileiras e mais de 50% do PIB, as sociedades familiares enfrentam desafios jurídicos únicos em eventos como divórcio, dissolução de união estável e inventário.

Sabrina Blaustein Regino de Mello
Sabrina Blaustein Regino de MelloBMR Advogados
Sociedades familiares no Brasil: desafios e perspectivas no direito empresarial

As sociedades familiares constituem o alicerce do tecido empresarial brasileiro, representando muito mais do que um modelo de negócio — são um verdadeiro patrimônio cultural, econômico e jurídico do empreendedorismo nacional. Dados revelam sua dimensão: **90% do total de empresas brasileiras** são familiares, respondendo por mais de **50% do PIB** e aproximadamente **75% dos postos de trabalho formais**. Contudo, 65% não sobrevivem à segunda geração e apenas 30% chegam à terceira.

Divórcio e a partilha de quotas sociais

O divórcio é o evento mais frequente a colocar em risco a estabilidade das sociedades familiares. No regime de **comunhão parcial de bens** — predominante no ordenamento jurídico brasileiro —, as quotas adquiridas durante a sociedade conjugal são passíveis de partilha. O cônjuge não-sócio pode ter direito a receber parte das quotas ou valor econômico equivalente.

A determinação do **valor das quotas** é o ponto mais sensível do processo. Os principais critérios utilizados incluem: (i) valor contábil registrado nas demonstrações financeiras; (ii) laudos de avaliação econômico-financeira elaborados por peritos; e (iii) perspectivas de resultado e fluxo de caixa futuro. A jurisprudência do STJ (REsp 1.729.110/MG) tem favorecido métodos de avaliação que considerem não apenas o valor contábil, mas também o potencial econômico da empresa.

A partilha deve respeitar o **princípio da preservação da empresa**, evitando soluções que desestabilizem a sociedade ou inviabilizem sua continuidade operacional.

Dissolução de união estável

A dissolução da união estável, equiparada ao casamento para efeitos patrimoniais, apresenta desafios similares. Os bens adquiridos onerosamente na constância da união estável são considerados fruto do esforço comum, sendo passíveis de partilha. Aspectos determinantes incluem a data de início da união, sua duração, a contribuição de cada convivente para a formação do patrimônio e a existência de contrato de convivência com disposições sobre o regime de bens.

Inventário e a sucessão das quotas

O falecimento de um sócio em empresa familiar desencadeia o processo de inventário, que traz complexidades específicas. As quotas do sócio falecido integram o patrimônio hereditário e são partilháveis entre os herdeiros necessários. O contrato social deve ser analisado cuidadosamente: muitos preveem cláusulas que limitam ou regulam a entrada de herdeiros na sociedade.

O inventário apresenta dois caminhos possíveis para as quotas:

**Manutenção da unidade societária** — Os herdeiros optam por manter as quotas indivisas, indicando um representante para exercer os direitos perante a sociedade. Preserva a coesão do controle.

**Fragmentação das quotas** — As quotas são divididas entre os herdeiros, o que pode gerar conflitos de gestão e diluir o controle. Deve ser avaliada com extremo cuidado.

Instrumentos preventivos

A melhor proteção para as sociedades familiares é a **prevenção jurídica**. Os principais instrumentos são:

**Acordos de sócios** — regulam o exercício do voto, a transferência de quotas, os direitos de preferência e as cláusulas de saída.

**Pactos antenupciais** — estabelecem o regime de separação total de bens, protegendo as quotas empresariais da partilha em caso de divórcio.

**Planejamento sucessório** — testamentos, holdings familiares e doações com reserva de usufruto antecipam a transmissão patrimonial e evitam o inventário litigioso.

**Contrato social robusto** — com cláusulas específicas que regulam o que acontece com as quotas em caso de divórcio, falecimento ou exclusão de sócio.

Conclusão

O sucesso na gestão jurídica das sociedades familiares reside na capacidade de construir pontes entre o Direito Empresarial e o Direito de Família, com o olhar voltado para a perpetuação do legado e a preservação do valor econômico e social das empresas. O BMR Advogados possui expertise consolidada nessa intersecção, assessorando famílias empresárias na estruturação de instrumentos de governança e na resolução de conflitos societários.

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Este conteúdo tem caráter estritamente informativo e foi produzido em observância ao Provimento OAB nº 205/2021. Não constitui aconselhamento jurídico nem substitui a consulta a advogado habilitado.

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